Telhados muito quentes, fachadas escuras em clima quente e ambientes internos desconfortáveis não são apenas uma questão de estética: são consequência direta de decisões de projeto sobre absortância solar da envoltória. A NBR 15575 passou a tratar esse tema de forma explícita, relacionando a absortância de coberturas e paredes externas com o desempenho térmico mínimo das habitações.
Para quem projeta edificações residenciais — arquitetos, engenheiros civis e eletricistas que lidam com desempenho térmico e carga de climatização — entender como especificar telhados e revestimentos com a absortância correta é fundamental para atender à NBR 15575 e, principalmente, para garantir conforto térmico real aos usuários.
O que é absortância solar e onde a NBR 15575 a utiliza
A absortância à radiação solar (α) é a fração da energia solar incidente que a superfície absorve. Em termos simples:
α = 1 – refletância (desprezando a transmitância em superfícies opacas).
Superfícies claras têm baixa absortância (α menor, alta refletância), absorvem pouco calor; superfícies escuras têm alta absortância (α maior), absorvem muito calor.
A NBR 15575‑1 e suas partes específicas (paredes e coberturas) determinam que a absortância à radiação solar das superfícies expostas deve ser definida conforme a cor e as características das superfícies externas da cobertura e das paredes. Esses valores entram, junto com a transmitância térmica (U) e a capacidade térmica (CT), nos critérios de desempenho térmico mínimo, intermediário e superior.
NBR 15575 e desempenho térmico: papel da absortância
A norma oferece dois caminhos principais para avaliar o desempenho térmico das habitações:
- Procedimento simplificado: usa tabelas de limites de U (W/m²·K) e α para paredes externas e coberturas em cada zona bioclimática (ZB 1 a 8, conforme NBR 15220), classificando o sistema construtivo como mínimo, intermediário ou superior.
- Simulação computacional: permite modelar o edifício em softwares (EnergyPlus, etc.) e verificar o número de horas de desconforto por calor ou frio ao longo do ano, para diferentes combinações de U, α, CT e estratégias de ventilação/sombreamento.
No procedimento simplificado, a cobertura deve atender a limites simultâneos de transmitância térmica e absortância da superfície externa (αcob), enquanto as paredes externas também são avaliadas com base em U e αpar em faixas associadas a tons claros, médios e escuros. Os valores de referência de absortância para quando a cor ainda não está definida costumam ser:
- α ≈ 0,30 para tons claros (brancos, off‑white, bege claro);
- α ≈ 0,50 para tons médios;
- α ≈ 0,70 para tons escuros.
Estudos comparando o procedimento simplificado com simulação anual mostram que a combinação de U e α é crítica, e que, em alguns climas, o procedimento simplificado pode não representar bem o desempenho real. Mesmo assim, ele é uma referência prática importante para especificação inicial.
Absortância, cor e conforto térmico: o que os estudos mostram
Parece óbvio dizer que telhado preto esquenta mais que telhado branco, mas a magnitude desse efeito e sua interação com o clima é o que interessa para a NBR 15575.
Trabalhos experimentais e de simulação indicam:
- Telhas e tintas com absortância mais elevada podem aumentar em até 24,7% (telhas) e 17,5% (tintas) o número de horas anuais de desconforto por calor em zonas quentes.
- No inverno, telhas e tintas de maior absortância reduzem horas de desconforto por frio (aproveitando ganhos solares), em até ~17% para telhas e ~13,7% para tintas.
- Em zonas muito quentes (ZB 7–8), coberturas com absortância baixa (α≈0,3) tendem a garantir desempenho superior para o verão, mesmo com U não tão baixo.
- Em zonas frias (ZB 1–2), coberturas com absortância alta (α≈0,7–0,9) podem ser vantajosas para o inverno, desde que bem combinadas com U adequado.
Outro ponto relevante é que cores aparentes semelhantes podem ter absortâncias muito diferentes dependendo da formulação da tinta. Estudos sobre “tintas frias” mostram, por exemplo, que algumas tintas coloridas especiais mantêm a aparência de cores mais escuras, mas com baixa absortância no infravermelho, reduzindo o aquecimento superficial.
Zona bioclimática: base para escolher a absortância do telhado
A NBR 15575 remete à NBR 15220, que divide o Brasil em oito zonas bioclimáticas com estratégias construtivas recomendadas. A escolha da absortância ideal da cobertura não é universal; depende do clima:
- ZB 1–2 (climas mais frios): uma cobertura ligeiramente mais escura (α mais alto) pode ajudar a reduzir desconforto por frio no inverno, desde que não prejudique demais o verão.
- ZB 3–8 (climas quentes ou mistos): coberturas claras, com baixa absortância (α≈0,3–0,5), reduzem fortemente ganhos de calor e horas de desconforto por calor, sendo geralmente recomendadas.
Em regiões onde há tanto desconforto por calor quanto por frio, a literatura recomenda escolha criteriosa da absortância, combinada com:
- maior massa térmica (capacidade térmica elevada);
- ventilação natural bem dimensionada;
- sombreamento externo e interno eficiente.
Especificação de telhados: materiais, absortância e NBR 15575
Telhas de fibrocimento
Boletins técnicos de fabricantes indicam que telhas de fibrocimento natural apresentam absortância à radiação solar em torno de 0,70 (70%). Essa é uma superfície relativamente escura do ponto de vista térmico, o que, em climas quentes, aumenta ganhos de calor pela cobertura.
Para atender aos limites de desempenho térmico da NBR 15575‑5, fabricantes geralmente recomendam combinar telha de fibrocimento com outros recursos como:
- manta térmica sob a telha;
- ventilação do ático (espaço de ar sob a cobertura);
- forro/laje com isolamento adicional.
Telhas cerâmicas e de concreto
Telhas cerâmicas esmaltadas ou de concreto podem ter desde absortâncias relativamente baixas (cores claras, esmaltes refletivos) até muito altas (cores escuras). Estudos com telhas cerâmicas e de concreto expostas ao envelhecimento natural mostram que a absortância pode aumentar ao longo do tempo, degradando o desempenho térmico.
Em geral, para zonas quentes, recomenda‑se:
- preferir telhas claras ou com esmaltes/tintas refletivos (α baixo);
- evitar cores muito escuras sem isolamento complementar.
Telhas metálicas e “telhados frios”
Telhas metálicas sem tratamento costumam aquecer muito. Porém, quando combinadas com revestimentos refletivos e alta emissividade térmica, podem atuar como “telhados frios”, com baixa absortância solar, mesmo em cores não totalmente brancas.
Esses sistemas são particularmente interessantes em zonas quentes, pois reduzem significativamente a temperatura superficial da cobertura e a carga térmica interna.
Especificação de revestimentos de fachada: tons claros, médios e escuros
Para revestimentos de fachada, a NBR 15575‑1 sugere usar, na ausência de definição de cor, α = 0,3 (tons claros), α = 0,5 (médios) e α = 0,7 (escuros). Pesquisas confirmam que cores mais claras reduzem a absorção de calor, enquanto cores escuras podem elevar significativamente a carga térmica interna.
Uma decisão adequada de cor e absortância de fachadas pode:
- reduzir horas de desconforto por calor em climas quentes;
- diminuir a carga térmica nos ambientes e, portanto, o dimensionamento de sistemas de climatização;
- contribuir para menores temperaturas superficiais externas, mitigando ilhas de calor locais.
Quando a arquitetura exige cores mais escuras, é possível recorrer a tintas frias, que mantêm a tonalidade aparente mas reduzem absortância solar, especialmente no infravermelho.
Degradação da absortância ao longo do tempo
As emendas recentes da NBR 15575 introduziram a recomendação de considerar a degradação da absortância à radiação solar ao longo do tempo. Segundo o LabEEE, a emenda apresenta, em caráter informativo, procedimentos de medição ou valores obtidos em estudos de campo.
Estudos com telhas cerâmicas e de concreto expostas ao intemperismo por dois anos mostram variações significativas na absortância solar, o que pode alterar o desempenho térmico da cobertura e o atendimento à norma. Na prática, isso significa que:
- telhados claros podem escurecer com sujeira e degradação superficial, aumentando a absortância;
- projeto deve considerar não só o valor inicial de α, mas seu comportamento ao longo da vida útil.
Passo a passo: como especificar telhados para atender ao conforto térmico NBR 15575
1. Identifique a zona bioclimática
Use a NBR 15220 para saber em qual zona bioclimática (ZB 1 a 8) está sua obra. Isso definirá se a prioridade é reduzir calor no verão, aproveitar ganhos solares no inverno ou equilibrar ambos.
2. Defina o sistema de cobertura
Especifique o tipo de telha (fibrocimento, cerâmica, concreto, metálica), a presença de:
- forro (gesso, PVC, laje);
- isolamento térmico (manta, lã mineral);
- ventilação no ático (telha + forro).
3. Escolha a faixa de absortância alvo (α)
- Zonas quentes (3–8): busque α baixo (≈0,3–0,5) para a cobertura, preferindo telhas claras ou revestimentos refletivos.
- Zonas frias (1–2): telhas com α intermediário a alto (≈0,5–0,7) podem ser aceitáveis ou desejáveis para o inverno, desde que você avalie o comportamento no verão.
4. Selecione produtos com dados de absortância confiáveis
Consulte fichas técnicas de fabricantes ou literatura técnica para obter α da telha e dos revestimentos. Em falta de dados específicos, use os valores de referência da NBR (0,3 / 0,5 / 0,7). Para fachadas, adote o mesmo critério, avaliando o impacto nas cargas térmicas internas.
5. Verifique atendimento via procedimento simplificado ou simulação
Utilize:
- as tabelas da NBR 15575 para checar se a combinação de U e α da cobertura e das paredes atinge pelo menos o nível mínimo para sua ZB; ou
- um fluxo de simulação computacional (por exemplo, modelo BIM exportado para EnergyPlus) para avaliar horas de desconforto por calor e frio, conforme o método da norma.
6. Ajuste soluções se o desempenho for insuficiente
Se o desempenho térmico não atingir o nível mínimo, você pode:
- reduzir a absortância da cobertura (mudando cor ou adotando revestimento refletivo);
- diminuir a transmitância (adicionar isolamento ou manta térmica);
- melhorar a ventilação natural (aumentar aberturas, usar venezianas, exaustores);
- adotar dispositivos de sombreamento (beirais maiores, brises, elementos externos).
Passo a passo: como especificar revestimentos de fachada com foco em absortância
1. Defina a estratégia sazonal
Em zonas quentes, priorize fachadas de baixa absortância (tons claros), especialmente nas orientações mais expostas ao sol. Em zonas frias, pode haver margem para tons médios, desde que se considere a combinação com outras estratégias de conforto.
2. Use valores de referência de absortância
Quando a cor ainda não estiver definida, trabalhe com os valores de referência da NBR 15575‑1 (α=0,3; 0,5; 0,7) nos estudos de desempenho térmico e simulação. Isso permite antecipar o impacto da paleta de cores na envoltória.
3. Considere tintas frias quando a arquitetura exigir cores escuras
Se a linguagem arquitetônica demandar superfícies mais escuras, busque tintas frias, com formulação que reduza absortância no infravermelho sem alterar significativamente a aparência da cor, conforme demonstrado em estudos de tintas refletivas.
4. Combine absortância com sombreamento e ventilação
Mesmo com cores claras, dispositivos de sombreamento e ventilação natural bem dimensionados são decisivos para atendimento à NBR 15575, como mostram notas técnicas do LabEEE.
Como o BIM ajuda a especificar absortância e conforto térmico
Em projetos com BIM, é possível:
- cadastrar materiais de telhado e fachada com propriedades térmicas (U, absortância, emissividade);
- gerar modelos energéticos (BEM) a partir do modelo BIM, exportando para ferramentas como EnergyPlus;
- simular cenários de cores e tipos de telha antes da decisão final, avaliando o impacto em temperatura interna e carga de climatização.
Isso torna o processo de atender à NBR 15575 mais iterativo e orientado a dados, reduzindo retrabalho e melhorando a coordenação entre arquitetura, estrutura e instalações.
Exemplos práticos de decisão de projeto
Habitação em ZB 8 (ex.: Manaus)
- Telha metálica ou cerâmica clara, com α≈0,3;
- ventilação eficiente no ático;
- fachadas predominantemente claras;
- verificação do desempenho via simulação, já que o procedimento simplificado pode ser conservador em algumas combinações U–α.
Habitação em ZB 2 (ex.: Curitiba)
- Telha com α intermediário (≈0,5), combinada com boa capacidade térmica;
- isolamento adequado na cobertura para controlar perdas no inverno;
- fachadas em tons médios com dispositivos de sombreamento para o verão.
Edifício em zona mista (ex.: São Paulo, ZB 3)
- Telhado com α baixo (≈0,3–0,4) para reduzir calor;
- fachadas claras nas orientações críticas, com sombreamento externo;
- uso de simulação para ajustar U e α em paredes e cobertura, buscando equilíbrio entre inverno e verão.
Como a LGL Engenharia pode apoiar
A LGL Engenharia atua com projetos elétricos, BIM e soluções para construção civil, o que permite integrar decisões de envoltória (telhados e revestimentos) com o dimensionamento de sistemas elétricos e de climatização.
Podemos apoiar sua equipe em:
- consultoria de desempenho térmico com foco em atendimento à NBR 15575, desde a fase de concepção do telhado e das fachadas;
- modelagem BIM com propriedades térmicas de materiais e exportação para simulação computacional, avaliando diferentes cenários de absortância;
- integração das decisões de absortância com o projeto elétrico e de climatização, quantificando impacto em carga térmica e consumo de energia.
Se você precisa especificar telhados e revestimentos para atender ao conforto térmico da NBR 15575 em seus projetos, entre em contato com a LGL Engenharia para desenvolver estudos, simulações e soluções integradas sob medida para a sua realidade.
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